Este artigo foi escrito por Patrik Roger Pinheiro, historiador (Registro Profissional 181/SC), servidor público municipal e mantenedor do projeto Memória CVJ, que pode ser acessado em memoria.camara.joinville.br.

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Há um século nasciam dois homens que compartilhariam não só o ano de nascimento, mas também a profissão de farmacêutico e o cargo de vereador em Joinville. 1924 viu nascer Guilherme Zuege e Arthur Wolter.

Guilherme Zuege

Natural de Blumenau, Zuege nasceu em 19 de março. Conhecido farmacêutico em Pirabeiraba, ele foi um dos fundadores da Associação Rural de Pirabeiraba. Popular na região, Zuege conseguiu se eleger vereador por cinco mandatos seguidos, obtendo cadeira na Câmara de 1963 a 1982.

Como vereador, Zuege deu seu apoio à instalação do governo militar em 1964. Hoje todos podem olhar a história em retrospectiva e efetuar julgamentos, mas na época, havia o temor de que o comunismo se instalasse no Brasil, e muitos viam o golpe militar como uma barreira sólida contra o “perigo vermelho”. 

A primeira eleição de Zuege se deu através da UDN, mas quando o governo militar instituiu o bipartidarismo, e Zuege decidiu filiar-se à Arena, o partido da situação. Ele manteve-se filiado à Arena até a sua morte, em 1979. Zuege faleceu durante a nona legislatura (1977-1982), assumindo sua vaga o vereador Romeu Felipe Baumer. Na sexta Legislatura (1967-1970), Zuege foi vice-presidente da mesa diretora durante os quatro anos. 

Inauguração de Praça, com o jornalista Ary Silveira de Souza, Caetano Évora e Guilherme Zuege/ Memória CVJ

DE ESTRADA CUBATÃO A RUA GUILHERME ZUEGE: No século 19, uma via, denominada estrada Cubatão, ligava o núcleo de Anaburgo a Pirabeiraba. Com o tempo, a Rodovia Federal BR-101 cortou a via em duas partes, e a que ficou para o lado de Pirabeiraba foi chamada de Rua Jaraguá. Em 1979, a estrada foi renomeada para Rua Guilherme Zuege, em homenagem ao então recém-falecido vereador. Também há uma escola no Rio Bonito com o nome dele.

Arthur Wolter

Também nascido em 1924, Wolter também foi conhecido farmacêutico e trabalhou na Farmácia Órion, que ficava na rua João Colin. Ele também foi diretor social do Caxias Futebol Clube. 

Wolter foi vereador por duas legislaturas, a oitava e a nona, sendo vereador de 1973 a 1982. Nas duas ocasiões, teve a companhia de Zuege na Câmara, sendo ambos co-partidários, já que Wolter também era vereador pela Arena. Em 1979, com a volta do pluripartidarismo, houve a oportunidade de os vereadores escolherem novas filiações que iam surgindo, mas Wolter decidiu permanecer nas fileiras do PDS, partido herdeiro da agora extinta Arena.

Arthur Wolter, ao centro, com Pedro Ivo Campos / Acervo de Rafael Cristiano Wolter

Wolter faleceu em 27 de agosto de 1989, vitimado por um derrame cerebral enquanto lia jornal. Ele está sepultado no Cemitério Municipal de Joinville. Ao saber da morte de Wolter com uma semana de atraso, Luiz Henrique da Silveira publicou em jornal uma comovente homenagem que dizia:

Numa bela canção, o saudoso poeta Vinícius de Moraes diz que seria maravilhoso viver, “se todos fossem iguais a você”.

A vida pública deveria ter milhares de Arthur Wolter. Eu era prefeito de outro partido, mas gostava de recebê-lo em meu gabinete. Vinha sempre com muitos pedidos, mas nunca com nenhum pedido pessoal. Recebia-o pela manhã e à tarde ia com ele e com o administrador regional ver os problemas que me trazia.

Era um homem decente, educado, cavalheiro, sensato, justo. Solidário e prestativo, não tinha hora nem dia. Estava sempre pronto a socorrer ou prestar serviço a alguém. Talvez sem nunca tê-la lido, Arthur Wolter fazia de sua vida a prática da lição de Gabriela Mistral: “Onde haja uma missão a cumprir, e todos se esquivam, aceita-a tu!”

Era um homem simples, modesto, humilde, mas quanta grandeza acrescentava a Joinville com seu trabalho, com sua luta. A casa modesta da rua Max Colin retrata sua desambição. Sei que sofreu quando o povo lhe negou o terceiro mandato. Mas de seus lábios não saiu nenhuma queixa, nenhuma recriminação. Continuou o mesmo, prestativo, disponível, atencioso. Wolter tinha a noção exata do papel do vereador. Homem da comunidade, estava permanentemente junto a ela.

Soube de sua morte repentina com uma semana de atraso. Mas não quero deixar passar outra semana sem lhe prestar a justa homenagem. O nome de Arthur Wolter precisa figurar numa rua, numa praça, numa escola, num posto de saúde. É um nome que Joinville precisa perpetuar. Pois só assim incentivaremos o surgimento de mais gente como ele.

Franklin de Oliveira diz que uma “comunidade sem memória não tem lugar no futuro”. Perpetuar a memória de Arthur Wolter é assegurar para Joinville um futuro, de gente correta e dedicada. E fazer com que as pessoas se sintam incentivadas a ser iguais a ele.

Sobre perpetuar a memória de Wolter, ainda não temos em Joinville nenhum logradouro que leve o nome do ex-vereador estimado por LHS.

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